A jornada de Sleeq no Good Girl e a importância da representatividade.

Se você acompanhou minimamente o que está “por trás” do Good Girl, já deve ter ouvido algo sobre essa Sleeq. Ela é uma rapper underground bastante conhecida entre o público feminino deste nicho. A garota também é uma figura que usa de sua visibilidade para levantar importantes bandeiras na sociedade. Dentre essas, ela é mais conhecida por ser feminista e chegou a receber apelidos maldosos como “feminista dos infernos” por lutar pela causa em suas faixas.

Dentre outras coisas, ela também apoia abertamente a causa LGBT+ (porém não sei dizer se ela faz parte do vale). Dito isso, ela representa algo muito forte e intenso, onde muitas pessoas se sentem acuadas pela presença dela. Ou mesmo só possuem o mal e velho preconceito. Falando de aparência física, Sleeq, como vocês podem ver, não é uma pessoa padrão que se preocupa com maquiagem ou roupas apertadas. Seu cabelo é curtinho e seu estilo é mais “largado” como se diriam meus pais. Ou seja, outro ponto que deixam as pessoas com aversão a ela.

Isso é muito frisado nos primeiros episódios do reality, onde a Mnet fez questão de repetir várias vezes os “títulos” que ela carrega e ainda colocou inúmeros discursos das outras meninas, falando sobre como se sentem acuadas perto da Sleeq. Ou então sobre terem medo de ter ela no time por ser uma pessoa “não flexível” às opiniões alheias detalhe: as meninas tiraram essas informações do cu, pois a própria Sleeq só deu bom dia pra elas e nem chegou a ser rude nem nada.

Para a primeira missão do programa, eles pediram para que todas criassem performances solos que refletissem em suas imagens. Foi até um artifício para que elas se conhecessem melhor. A rapper decidiu fazer o que sempre faz, subiu no palco de pés descalços e um blusão branco e soltou o verbo sobre representatividade. E ninguém nem respirou durante toda a duração disso.

Aí pronto. A imagem de pessoa antipática e inflexível se fortaleceu na cabeça de todos e fomos obrigados a assistir a coitada da Sleeq entrando em desespero por se sentir deslocada. Cogitando até a ideia de ir para casa e desistir do programa. Principalmente no momento em que as dez deveriam se dividir em 5 duplas e a rapper ficou de lado. Só fez par com a Hyoyeon, pois no final das contas a soshi ficou sobrando.

Depois ainda tivemos vários momentos ridículos da DJ Hyo parecendo uma criança mimada e fazendo a Sleeq se sentir ainda mais deslocada e “culpada” por estar ali. Até que depois de muito tempo de rispidez, a soshi finalmente concordou com uma sugestão da rapper para a performance das duas.

Finalmente as duas puderam começar a trabalhar de uma maneira mais funcional, o que resultou na apresentação acima. O que surpreendeu a todas as participantes foi o fato da “feminista dos infernos” dar o sangue pelo stage. Ela treinou sem parar e mesmo não tendo domínio sobre dança, mostrou que é capaz de fazer uma collab e que ainda pode ser muito mais camaleônica do que parece.

Algo bem positivo da posição das meninas, principalmente a Hyo, foi vê-las pedindo desculpas e se sentindo chateadas por julgarem pelas aparência.

Na missão seguinte, Sleeq foi super desejada por todas e acabou parando nesse trio com a Yunhway e a Park Jimin Jamie. Foi uma apresentação divertida e com um clima bem descontraído, onde a “feminista dos infernos” carregou as outras meninas nas costas e fez o stage bem mais memorável.

Depois disso, Ailee fez questão de dividir o palco com a garota e ainda por cima, se colocou à disposição para executar algo mais forte e cru, como as coisas que a Sleeq já está acostumada. Por fim e por razões de competitividade, preferiram misturar os estilos de ambas e lançaram uma balada incrível e extremamente emocionante. E mais uma vez, de garota excluída e sem amigas, Sleeq passou a ser a popular do grupo que todos querem estar perto.

Olhando “de fora” da competição, na posição que nós estamos. Dá para perceber que esse programa foi uma experiência social, mesmo que não tenha tido esse objetivo. A garota desconstruída e com uma imagem inversa ao que é vendido pela mídia, foi completamente esfregada na lama pelas demais (e até pelo público que mal aplaudiu ela na primeira missão).

O pré-conceito de pessoa inflexível e agressiva gerado pela sociedade para com pessoas que são diferentes, marca forte presença aqui e mostra o tanto que ainda temos que caminhar para aceitar os outros e entender que eles também são como a gente.

Vocês podem ainda dizer “ain mas lá é Coreia né? essa menina queria o que indo pra esse programa?“. Mas me desculpem cortar o barato de vocês, pois ela só queria uma oportunidade de competir e ganhar uns trocados igual qualquer outra participante do programa. E outra, aqui no Brasil as coisas não são muito diferentes.

Gays, lésbicas, feministas e várias outras minorias de pele branca e visuais padrões, conseguem sim ter um micro-espaço na sociedade e gritar por seus direitos (e olha que isso não é a realidade de todos esses ainda). Porém qualquer um outro que fuja disso, ainda vira motivo de chacota ou é isolado como aconteceu com Sleeq.

Tudo isso, gera um desconforto e uma vontade de sair correndo do lugar. Imaginar estar no lugar da rapper é desesperador, pois ela mal tinha trocado 3 palavras ali e todo mundo nem olhava ela nos olhos. A garota precisou passar por inúmeras provações para conseguir ser aceita pelo grupo. E que bom que foi aceita, pelo menos valeu de algo.

O que me faz querer escrever um post aqui é o fato de que isso se repete várias vezes ao redor do mundo todo, com as minorias. São todos tratados com um “cuidado” maior e muitas vezes nem conseguem se expressar pelo clima pesado gerado por quem, simplesmente, não está afim de tentar mudar seu pensamento. O que ainda deixa mais na cara a importância da visibilidade, pois voltando a falar da Sleeq, ela é uma garota forte/maravilhosa e de personalidade extremamente brilhante.

Mas ninguém saberia disso, caso ela não tivesse marcado presença no reality. E o título de “feminista dos infernos” continuaria ecoando na cabeça das pessoas sem elas sequer irem atrás para mudarem seus pensamentos. Além de automaticamente, taxarem outras meninas com a aparência dela com este mesmo título. E gerar toda aquela roda d’água que movimenta a sociedade e sempre massacra os que não conseguem se destacar, por pura falta de oportunidades e preconceito que os impedem de chegarem mais longe.

Mas só para concluir essas mais de mil palavras enaltecendo a garota. A partir dela, temos um exemplo fácil de como a representatividade funciona. Não é só para “lacrar” ou “puxar saco” dos militantes. É para ter com quem as pessoas se identificarem, seja na TV ou em qualquer outra mídia. Além de quebrar estereótipos idiotas que só servem para fortalecer o preconceito.

Tenho certeza que depois que o Good Girl acabar Hyoyeon, Yeeun, Cheetah, Jiwoo, Ailee, Jamie, Queen Wa$$abi, Youngji e Yunhway serão mais cuidadosas antes de julgar alguém pela aparência ou pela mensagem de apenas uma apresentação. E espero que isso também toque a consciência de quem pode ver isso “do lado de fora”. Fazendo com que também não julguem alguém só porque a pessoa não se parece ou não se comporta como uma Barbie.

5 comentários em “A jornada de Sleeq no Good Girl e a importância da representatividade.

  1. MEU DEUS DO CÉU!!! Adorei este post!!! ❤ Ainda não sei se terei paciência pra ver esse reality, mas que maravilhosa esta participante xD!!

    Vou atrás dos lançamentos dela e ver o que encontro (hoje mesmo estava lembrando dos lançamentos do Holland e pensando no que mais de representativo poderíamos encontrar no meio capopeiro)…

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  2. Fiquei conhecendo a Sleeq pelo GG, e senti MTA pena dela desde o início, pq sabia que o povo cairia matando em cima dela. Tanto que fiquei surpreso qdo ela começou a fazer feat com as meninas (Precisei parei de acompanhar por causa do Road To Kingdom). O texto ficou ótimo, dá para refletir mto sobre a situação e acho que a MNet conseguiu um pouco desconstruir a imagem da Sleeq para o público, mesmo sem ser a intenção

    Curtido por 2 pessoas

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